Anjo das Tuas Respostas

Limite, de (olhares.com)
Ele lera todos os livros do mundo e ouvira e compreendera todas as teorias, que outros homens como ele haviam vomitado para cima da incompreensão da humanidade. Percebera o mundo como sendo redondo e girando em torno do Sol, jamais o contrário, as estrelas e toda a Fisica subjacente a elas nunca o intimidaram, compreendia as leis do Universo da mesma maneira que compreendia o frio ou o calor que sentia, uma pequena impressão na base da nuca voando depois para todo o corpo, preenchendo-o de um vazio estranho e solitário... E apesar de tudo, de toda a verdade, nenhum livro, nenhuma musica, ou lei lhe explicava o estranho sentir desse buraco negro, imenso, que era a sua alma. Ninguém lhe explicava por que choram os homens, nem ninguém o quisera fazer, e ele sentia continuamente o peso de todas as perguntas sem respostas que pelo cansaço já ninguém arriscava e nele saiam fluentemente esbarrando nas paredes solidas da ignorância, recuando, atingindo-o com uma força ainda mais avassaladora, reduzindo-o a pó, como nenhuma frase explicara ser possivel.
Foi num desses momentos de pó que a conheceu. Como que personificando ele a princesa de Turandot, colocou as suas perguntas ao olhar perdido e etéreo dela, um olhar negro e morto, morto como ele jamais imaginara, morto num corpo tão vivo e ágil... Colocou-as sabendo que ninguém as poderia responder. A primeira era uma rasteira, saia-lhe do cérebro com o àvontade trazido pelo habito de muitos anos.
«Porque choram os homens?»
A rapariga, talvez trinta anos mais nova que ele, cujo o olhar morto lhe sorria agora, vivo como um lume forte, não pensou dois segundos sequer, não precisou de mais que meio segundo para deixar aquele homem, que apesar de tudo já não sabia surpreender-se, boquiaberto de espanto, um espanto silêncioso misturado com a arrogância do pensamento que lhe dizia ter sido apenas sorte, não se apercebera da simplicidade das palavras que a rapariga dissera nem de onde vinham...
«Para sonharem que foram feitos à imagem de Deus...»
Não se daria por vencido tão cedo. Havia algo nele demasiado céptico para se render no primeiro instante.
«O que procuram os homens?»
A segunda pergunta deixara nela o desconforto de quem acha o jogo demasiado fácil e por isso não o compreende, mesmo assim não foi menos rápida.
«Uma alma que não seja gêmea da sua, para poderem ser melhores.»
Ele não percebia o que se passava, as perguntas que tinha iam esmorecendo na sua garganta, no seu cérebro perante as respostas que ela lhe sussurrava quase inaudiveis. Não tinha a certeza das resposta que ela dava serem correctas mas preenchiam-no, como se tapassem buracos, todos os buracos negros de todas as suas almas. Chegou então à última pergunta sem dar conta disso, pelo menos a última que lhe restava e ainda estava suficientemente viva no seu cérebro para a puder fazer, uma pergunta sem importância, pequena e ingénua que nunca fizera a ninguém.
«E tu não tens perguntas para mim?»
O olhar da rapariga morreu novamente. Por detrás dos seus cabelos negros como o breu da noite mais escura, surgiram duas longas e sedosas asas de um branco imaculado que lhe permitiram apenas as seguintes palavras antes de a arrancarem da cadeira da esplanada e da paisagem solarenga com o mar ao fundo...
«Meu amor, nós os anjos não sabemos ser homens...»
E esvoaçou para fora do alcance da vista dele. E o homem ficou perplexo e cheio de respostas a perguntas que já ninguém tinha, que ele não poderia dar e acordou...
by Ar, 2000







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